segunda-feira, maio 28, 2007

Simone de Beauvoir & Jean-Paul Sartre






“A partir de agora tomo conta de si”, disse-me Sartre quando me anunciou que passara. Tinha prazer nas amizades femininas. A primeira vez que o vira na Sorbonne usava chapéu e conversava animadamente com um mulherão da agrégation que eu achava muito feia; desagradara-lhe depressa; ligara-se com outra, mais bonita, mas que dava complicações e com quem em breve se zangara. Quando Herbaud lhe falara de mim quisera logo conhecer-me e agora estava todo contente por poder agarrar-me; quanto a mim, parecia-me que todo o tempo que não passava com ele era tempo perdido. Durante os quinze dias que durou a oral do concurso, só nos separávamos para ir dormir. Íamos à Sorbonne fazer as provas e ouvir as recomendações dos nossos colegas. Saíamos com os Nizan. Tomávamos bebidas no Balzar com Aron, que fazia o serviço militar na meteorologia, com Politzer, que estava agora inscrito no Partido Comunista. A maioria das vezes passávamos os dois sozinhos. No cais do Sena, Sartre comprava-me exemplares do Pardaillan e do Fantomas, que preferia de longe à Correspondência de Rivière e Fournier; levava-me à noite ver fitas de cow-boys, pelos quais me apaixonei como neófita, pois era sobretudo especialista no cinema abstracto e no cinema de arte. Nas esplanadas dos cafés ou bebendo cocktails no Falstaff durante horas, conversávamos.

Nunca pára de pensar”, dissera Herbaud. Isso não significava que segregava a todo o momento fórmulas ou teorias: detestava o pedantismo. Mas o seu espírito estava sempre alerta. Ignorava os torpores, as sonolências, as fugas, as esquivas, as trevas, a prudência, o respeito. Interessava-se por tudo e nunca aceitava nada como sendo definitivo. Diante de um objecto, em vez de o escamotear a favor de um mito, de uma palavra, de uma sensação, de uma ideia preconcebida, contemplava-o; não o largava antes de ter compreendido as suas causas, os seus efeitos e os seus múltiplos sentidos. Não perguntava a si próprio o que se devia pensar, o que seria excitante ou inteligente pensar-se: só o que ele próprio pensava. Assim, decepcionava os estetas ávidos de uma elegância comprovada. Ouvindo-o dois anos antes fazer um exposé, Riesmann, deslumbrado pela logomaquia de Baruzi, dissera-me tristemente: “Não tem génio!” Durante uma aula sobre a “classificação” a sua boa-fé minuciosa pusera esse ano à prova a nossa paciência; acabara por forçar o nosso interesse. Interessava sempre as pessoas a quem a novidade não afastava, pois não tendo em vista a originalidade, não caía em nenhum conformismo. Obstinada, ingénua, a sua atenção apreendia na sua profusão as coisas bem vivas. Como o meu pequeno mundo era apertado, ao lado desse universo abundante! Mais tarde só certos loucos me inspiraram uma humildade parecida, quando descobriam numa pétala de rosa um encadeamento de intrigas tenebrosas.

Falávamos de uma porção de coisas, mas particularmente de um assunto que me interessava mais do que todos: eu própria. Quando pretendiam explicar-me, as outras pessoas anexavam-me para o seu mundo, irritavam-me; Sartre, pelo contrário, tentava situar-me no meu próprio sistema, compreendia-me à luz dos meus próprios valores, dos meus próprios projectos. Ouviu-me sem entusiasmo quando lhe contei a minha história com Jacques; para uma mulher educada como eu fora, era talvez difícil evitar o casamento: mas não pensava que isso desse bom resultado. Em todo o caso eu devia preservar o que havia de mais admirável em mim: o meu gosto pela vida, a minha curiosidade, a minha vontade de escrever. Não só me encorajava nesse projecto como propunha ajudar-me. Mais velho do que dois anos – que aproveitara -, tendo começado mais cedo e melhor, sabia muito mais do que eu sobre todos os assuntos: mas a verdadeira superioridade que ele reconhecia em si, e que me saltava aos olhos, era essa paixão tranquila e violenta que o lançava para os seus futuros livros. Noutros tempos eu desprezara as crianças que tinham menos ardor a brincar ao croquet ou a estudar: eis que encontrava uma pessoa aos olhos de quem os meus frenezins pareciam tímidos. E com efeito, se me comparava com ele, as minhas febres eram mornas! Achara-me extraordinária porque não conseguia conceber a vida sem escrever: ele vivia para escrever.

Não contava, decerto, levar uma vida de homem fechado num escritório; detestava as rotinas e as hierarquias, as carreiras, os lares; os direitos e os deveres, todas as coisas sérias da vida. Resignava-se mal à ideia de ter uma profissão, colegas, superiores, regras a observar e a impor; nunca seria um pai de família nem um homem casado. Com o romantismo da época e dos seus vinte e três anos, sonhava com grandes viagens: a Constantinopla, onde confraternizaria com os estivadores; embrigar-se-ia nas caves com os chulos; daria a volta ao globo, e nem os párias das Índias, nem os popes do monte Atlas, nem os pescadores da Terra Nova teriam segredos para ele. Não criaria raízes em parte nenhuma, não acarretaria qualquer posse: não para ficar disponível em vão, mas para testemunhar de tudo. Todas as suas experiências deviam aproveitar à sua obra, e afastava categoricamente as que pudessem diminuí-la. Sobre este assunto discutimos firme. Eu admirava, pelo menos em teoria, as grandes desordens, as vidas perigosas, os homens perdidos, os excessos de álcool, de droga, de paixão. Sartre mantinha que quando se tem alguma coisa a dizer qualquer desperdício é criminoso. A obra de arte, a obra literária, era aos seus olhos um fim absoluto; tinha em si a sua razão de ser, a do seu criador e até mesmo –ele não o dizia, mas eu suspeitava de que estava persuadido – a do universo inteiro. As contestações metafísicas faziam-no encolher os ombros. Interessava-se pelas questões políticas e sociais, simpatizava com a posição de Nizan; mas o seu assunto era escrever, o resto só vinha depois. Aliás, era então mais anarquista do que revolucionário; achava detestável a sociedade tal como ela era, mas não detestava detestá-la; o que chamava a sua “estética de oposição” acomodava-se perfeitamente com a existência de imbecis e malvados e até a exigia: se não houvesse nada a abater, a combater, a literatura não teria sido grande coisa.

Com algumas diferenças, havia um grande parentesco entre a sua atitude e a minha. Não havia nada de mundano nas suas ambições. Censurava o meu vocabulário espiritualista, mas também era uma salvação que procurava na literatura; os livros introduziam neste mundo deploravelmente contingente uma necessidade que abraçava também o seu autor; certas coisas tinham de ser ditas por ele e então todo ele seria justificado. Tinha juventude bastante para se comover com o seu destino quando ouvia um tema de saxofone depois de beber três Martinis; se fosse preciso, teria aceite permanecer anónimo: o importante era o triunfo das ideias, não o seu próprio êxito. Não pensava – como me acontecera pensar – que era “alguém”, que tinha “valor”; mas considerava que importantes verdades – talvez fosse ao ponto de pensar: a Verdade – se tinham revelado a ele e que tinha por missão impô-las ao mundo. Em cadernos que me mostrou, nas suas conversas e até mesmo nos seus trabalhos escolares, afirmava com teimosia um conjunto de ideias cuja originalidade e coerência espantavam os amigos. (…)

Tive a evidência que escreveria um dia uma obra filosófica que contaria. Mas não facilitava a tarefa, pois não tinha a intenção de compor, segundo as regras tradicionais, um tratado teórico. Gostava tanto de Stendhal como de Espinosa e recusava-se a separar a filosofia da literatura. A seus olhos, a contingência não era uma noção abstracta mas uma dimensão real do mundo: era preciso utilizar todos os recursos da arte para tornar sensível ao coração essa secreta “fraqueza” que via no homem e nas coisas. A tentativa, para a época, era muito insólita; era impossível tomar inspiração numa moda ou num modelo: tanto me impressionara o pensamento de Sartre pela sua maturidade como fiquei desconcertada com a inabilidade dos ensaios onde o exprimia; a fim de a apresentar na sua singular verdade, recorria ao mito. (…) Ele apercebia-se desta incapacidade, mas não se inquietava; de qualquer forma nenhum sucesso bastaria para fundar a sua confiança inconsiderada no futuro. Sabia o que queria fazer e tinha a vida à sua frente: acabaria por fazê-lo. Não duvidei um só instante: a sua saúde, o seu bom humor ultrapassavam todos os obstáculos. Manifestamente a sua convicção recobria uma resolução tão radical que mais dia menos dia, de uma maneira ou de outra, teria o seu fruto.

Era a primeira vez na minha vida que me sentia intelectualmente dominada por outrem. Muito mais velhos que eu, Garric, Nodier tinham-me impressionado: mas de longe; vagamente, sem que eu me comparasse com eles. Com Sartre, todos os dias, durante o dia inteiro, eu me comparava a ele e nas nossas discussões não me mostrava à altura. No Luxemburgo, uma manhã, perto da Fonte Médicis, expus-lhe essa moral pluralista que eu construíra para justificar as pessoas de quem gostava mas a quem não queria assemelhar-me: desfê-la em pedaços. Eu estava agarrada a ela porque me autorizava a tomar como árbitro do bem e do mal o meu coração; debati-me durante três horas. Tive de reconhecer a minha derrota; além disso, apercebera-me durante a conversa que muitas das minhas opiniões só repousavam em princípios, má-fé ou incoerência, que as minhas ideias eram confusas. “Já não tenho a certeza do que penso, nem sequer de pensar.”, escrevi decepcionada. Não punha nisso nenhum amor-próprio. Era muito mais curiosa do que imperiosa, gostava mais de aprender do que brilhar. Mas mesmo assim, depois de tantos anos de arrogante solidão, era um acontecimento sério descobrir que não era nem única, nem a primeira: era uma entre muitos e bruscamente insegura das minhas verdadeiras capacidades. Porque Sartre não era o único a obrigar-me à modéstia: Nizan, Aron, Politzer tinham sobre mim um avanço considerável. Eu preparara o concurso à pressa: a cultura deles era mais sólida do que a minha, estavam ao corrente de uma porção de novidades que eu ignorava, tinham o hábito da discussão; e, sobretudo, eu tinha falta de método e de perspectiva; o universo intelectual era para mim uma vasta confusão onde eu caminhava às apalpadelas; quanto a eles, a sua busca era, pelo menos de um modo geral, orientada. (…) Todos eles tinham tirado muito mais radicalmente do que eu as consequências da inexistência de Deus e trazido a filosofia do céu para a terra. O que também me impressionava era que tinham uma ideia bastante precisa dos livros que queriam escrever. Eu repetira que “diria tudo”; era muito e muito pouco. Descobri com inquietação que o romance põe mil problemas, do que eu nunca suspeitara.

Mas não perdi a coragem; o futuro parecia-me bruscamente mais difícil do que eu contara, mas era também mais real e mais seguro; em vez de possibilidades sem forma, eu via abrir-se diante de mim um campo claramente definido, com os seus problemas, as suas tarefas, os seus materiais, os seus instrumentos, as suas resistências. Já não me interrogava: o que fazer? Havia tudo a fazer; tudo o que outrora desejara fazer: combater o erro, encontrar a verdade, dizê-la, iluminar o mundo, talvez até ajudá-lo a mudar. Precisaria de tempo, esforço para cumprir nem que fosse só uma parte das promessas que fizera; mas isso não me assustava. Nada fora ganho: tudo era possível.

Além disso, uma grande oportunidade me era dada: diante desse futuro, bruscamente já não estava sozinha. Até então, os homens de que eu gostara – Jacques e, em menor grau, Herbaud – eram de uma espécie diferente da minha: desenvoltos, fugidios, um pouco incoerentes, marcados por uma espécie de graça funesta; era impossível comunicar com eles sem reserva. Sartre respondia exactamente ao voto dos meus quinze anos: era o sósia onde eu encontrava, levadas à incandescência, todas as minhas manias. Com ele poderia partilhar sempre tudo. Quando o deixei no princípio de Agosto sabia que nunca mais sairia da minha vida.
Simone de Beauvoir, in Memórias de Uma Menina Bem-Comportada

quinta-feira, maio 17, 2007

O Suicídio é um Gesto Nobre


‘O suicídio é um gesto nobre (…) Ele é mesmo uma voz da Natureza para o animal que tem bons ouvidos. O lacrau. A baleia. Muito pássaro engaiolado. Quando nasceste a Natureza disse-te toma lá a vida e sê contente com ela. Não te disse toma lá a vida e espera aí um pouco que eu já te codilho. E que fazer se ela é um estupor? se ela ta dá e depois te cai em cima com um cancro invalidez fome cegueira paralisia reumatismo hidrocelos hepatites zumbideiras nos ouvidos trombose afasias pancada na mioleira e traições humilhações públicas e privadas depressões angústias metafísicas desastres políticos desastres amorosos burlas ambições amochadas derrotas no futebol na lotaria nas artes e letras e mais e mais e mais? O suicídio é o único acto nobre com que se pode enfrentar a traição da Natureza. Porque ela espera de nós o quê? Ela espera de nós a cobardia, a submissão abjecta, o comer e calar. Não vos caleis. Falai a única linguagem que ela e os deuses entendem. O suicídio é um acto nobre e corajoso e os que se suicidaram ficaram na História com o seu exemplo sublime. Catão, Lucrécio, Séneca, Luciano, Petrónio, quantos mais. Não se conta de ninguém que morreu de caganeira. Não se conta de suicídio senão dos romanos mas não dos gregos que eram uns merdas. Mas sempre o suicídio se assinalou como a razão da morte de quem teve razão na vida. Ele é mesmo o acto sacramental glorioso como abrir as tripas num país que conheceis. E é poruqe a Natureza conta com a vossa abjecção que há gente excedentária no planeta. Vede os pretos e amarelos que se multiplicam como as moscas. Assim o suicídio é uma acção benemérita em favor dos povos enquanto não for uma acção obrigatória como pagar uma multa por um carro mal estacionado. Glória aos precursores voluntários desta medida higiénica e demográfica, antes de ela vir a ser uma obrigação constitucional.
(…) Passava à questão prática da escolha do modo suicidário. Porque isto é naturalmente importante.(…) Isto tem uma graduação cultural de dignidade, sexo e até de classe. Já imaginaram um militar ou um arcebispo suicidarem-se com pesticidas? Ou um campónio com barbitúricos? Ou uma mulher com uma espingarda caçadeira que lhe deixasse a cara em fascículos? Não sou tão exigente ou rigoroso que vos aconselhe um método de execução. Eles são mesmo inúmeros porque a necessidade humana é imensa. Mas dou-vos alguns para uma ementa mais variada. Eles são, aliás, os mais correntes, ou seja os mais batidos na experiência. Escolhei. Mas sede prudentes e escolhei com ponderação. Os métodos que vos sugiro são: 1 – o tiro. É rápido e funcional. E tem a vantagem de não precisar de preparativos. 2 – por enforcamento. Também é rápido mas tem o inconveniente de se ter de montar a corda, armar o laço, subir para um banco, empurrá-lo e ficar com a língua de fora. 3 – afogamento. Incómodo. Mais lento e com o incómodo da água. 4 – o punhal. Só praticável para homens históricos e já um pouco fora de uso. E há a sangueira. 5 – o veneno. É conforme. Os pesticidas proletários dão dores que se fartam. Os barbitúricos são mais suaves. Adormece-se e não vale a pena chamarem porque já se não acorda. Mais próprios para mulheres que têm sempre a esperança de que de todo o modo as acordem. 6 – debaixo do comboio ou do metro. Método também popular. Pouco cordial para quem tem de apanhar os destroços. Mas de decisão rápida. Está-se ao pé da linha e a decisão vem ou não vem. Se vem, é logo. 7 – cortar as veias. É um método clássico e histórico para quando não havia o tiro nem o comboio. Muito digno. Mas muito sujo. O exemplo mais célebre é o de Petrónio que tapava e destapava a veia para ir entretendo o paleio com os amigos e ir morrendo por etapas. Pouco recomendável para os tempos modernos pela demora e falta de limpeza. São estes sete processos que vos proponho porque o 7 é um número esotérico e contém portanto uma verdade profunda. '



Na tua Face, Vergílio Ferreira

terça-feira, abril 10, 2007

Pra finalizar...

Já na Domingo, suplemento do Correio da Manhã (este é a minha mãe que compra, por causa das colecções), um artigo sobre a doença bipolar e uma pequena lista sobre doentes bipolares famosos. Todos artistas ou ligados às artes. Será a criatividade realmente uma ‘doença’? Olhem, aqui está a Florbela Espanca e o Mário de Sá Carneiro. E a Virgínia Woolf e o Antero. Todos suicidados. Argh. Também o Hemingway, idem. Oh, o Francis Ford Coppola (he still lives!!!). Hum. Reflexão profunda sobre isto? Ná, não me apetece.

E para não desiludir os leitores habituados à futilidade da minha conversa neste blog, deixem-me concluir com ‘O Marco d’Almeida é mesmo lindo, não é?’

Fui.

Estes críticos...

Este domingo foi definitivamente um dia para me pôr a par da imprensa. Ainda no Público, o único jornal no qual gasto dinheiro mesmo que não traga ofertas grátis, com todos os seus defeitos etc, no P2, p.12, vem o crítico Jorge Mourinha. Ora ele é tudo menos um mãos-largas no que toca a dar estrelinhas a filmes, e às vezes parece que isto é defeito e não feitio, mas passemos adiante. Decididamente, ele nem é dos piores. Claro que me vai dar bolinha preta a todos os meus futuros filmes (e talvez assim me traga mais público, sei lá), mas tenho de apontar uma coisinha. Nestas curtas linhas, Mourinha chama a atenção para uma nova séria da RTP2 (já agora, mas porquê mudar de logo, meu querido canal?) chamada Irmãos e Irmãs, que dá às sextas às 22.30. Serviço público, obrigado, realmente nem me apercebi que havia uma série nova. Dispensável seria talvez a crítica à boca larga ao ‘hype internacional de House (por exemplo)’. Ora vejo no Oxford Genie que hype é uma palavra depreciativa, to hype significando to advertise sth a lot and exxagerate its good qualities, in order to get a lot of public attention for it. Não nego que isto aconteceu, mas isso é defeito do canal que comprou a série e não desta em si. Porque é uma boa série. Ok, não são os Sete Palmos de Terra nem o 24 (e eu acho esta sobrestimada), mas nem o pretende ser, bolas. O mérito repousa quase todo nos ombros de Hugh Laurie, e se vamos não gostar da série só porque ela é popular, bolas… Que treta.

Mas não foi por isto que eu quis falar. É que Jorge Mourinha, crítico já com um ethos construído, que parece odiar tudo o que tenha mais de 10 espectadores (posso estar errada, mas é o que parece), comete a gaffe do ano ao enumerar as protagonistas da referida série: com um elenco de luxo encabeçado por Ally McBeal, Rachel Griffiths e pela veterana Sally Field. Para quem não sabe, Rachel Griffiths é a ‘Brenda’ dos Sete Palmos. Fiquei cheia de vontade de ver a série. Mas algo no meu cérebro habituado a ler javardices de críticos e teóricos do cinema mundiais fez clic. E reli. Hum. ‘Ally McBeal’. Que actriz é esta? É que só conheço a personagem ficcional. Quereria Mourinha referir-se a Calista Flockhart, que interpretou a referida personagem na série com o mesmo nome? Deixem-me ver numa coisa chamada IMDB (que recomendo fortemente a este crítico). Exactamente, aqui está. Ups, sr. Jorge Mourinha…

Errar é humano. Mas um crítico que joga tão duro na hora de classificar o trabalho dos outros, espera-se que tenha a mesma consistência, rigor e exigência quando se trata do seu trabalho… não?

As Ocas e os Cromos


Falando nestes assuntos, pelos vistos a TVI, acusada de promover uma imagem idiota de ambos os sexos em ‘A Bela e o Mestre’ (e deixem-me acusá-los também de terem um programa estúpido, talvez primeiro que tudo), anunciaram já que vão fazer uma outra versão (Nããããããõ!!!!) intitulada ‘O Belo e a Mestra’, onde modelos tipo Calvin Klein serão emparelhados com tipas vesgas, cheias de acne e de inteligência. Desde já recuso em adiantado o convite que a TVI me fará de certeza para participar no programa (afinal não sou nenhuma Mulher Elefante, bolas), mas pergunto-me: como é que uma estação televisiva pode ser tão IDIOTA???? Bolas, eles têm o RuiVilhena a trabalhar pra eles (isso e passarem o ‘House’ adiantados da Fox, são os únicos pontos positivos de que me lembro. Três, contando com o Marco d’Almeida). Não é essa a questão!


O problema está em associar a superioridade intelectual a um desleixo físico, e a simetria e preocupação com a imagem a um desleixo intelectual. É muito mais que um insulto às mulheres lindas e ocas, ou aos homens que, apesar de cromos, conseguem ir pra cama com elas. É sobretudo um insulto à complexidade do ser humano. É afirmar que a cultura desfigura o físico, torna-nos corcundas, míopes e completamente incapazes de seduzir seja quem for. Ou que lá por se pôr um bocado de maquilhagem na cara, frequentar o ginásio e ter uma alimentação equilibrada (acrescento que não acho nenhuma daquelas raparigas bonita, e eu sei apreciar mulheres, já pus uma foto da Bellucci nua neste blog) não se sabe quem é o primeiro ministro… É tão cliché pensar assim, tudo preto ou tudo branco… Por favor, passem mas é o Nip Tuck num dia definido e deixem-se de estragar a programação com m.e.r.d.a.

House e os metrossexuais

Mes amis, fui este Dominguinho de Páscoa comprar o Público, pela razão evidente do título apelativo da Pública, ‘House vai acabar com os metrossexuais?’. Nem que tivesse de ir ao Alentejo mais profundamente ateu e comunista para encontrar um quiosque aberto, tinha absolutamente de ler este artigo. Não sei se sabem, mas sempre me interessei muito pelos padrões comportamentais de ambos os sexos ao longo da história, e essa história dos metrossexuais – com símbolo máximo em David Beckham, aquela coisa oca, musculada e de pele mais impecável que a minha (não que seja preciso muito…) – e depois de uma tendência a que se deu o nome de überssexuais, liderados pelo eterno George Clooney, e agora o meu queridinho Hugh Laurie, que sigo desde o Blackadder vai dar origem a uma nova fase nessa coisa tão complexa que é responder de forma científica aos desejos das mulheres? (por mim, quero a edição especial do Charlie e a Fábrica de Chocolate, se faz favor).

Quem despoleta a polémica é uma tal de Júlia Ward, no blog TVSquad. Supostamente se Beckham é o ideal de homem para a mulher burra (e basta pensar na um dia lindíssima Victoria que está casada com ele), House é o sex-symbol da mulher que pensa. Uau. Obrigado.

Ora bem. Considero-me uma mulher pensante, um bocado pro bipolar e com níveis baixos de estrogénio, ok, mas mesmo assim uma mulher. E sim, o House é o tipo de homem com quem não me importava de passar o resto da vida (e falo da personagem, embora o actor me pareça também muito interessante do ponto de vista psicológico…). Porque é inteligente, porque não sendo necessariamente bonito tem charme, é sarcástico, faz rir, é uma espécie de miúdo grande, tem qualquer coisa muito escondida lá no fundo daquela carapaça rija, vive no meio do caos, gosta de música, toca piano… Como é que os homens não percebem qual é o atractivo de House? Ele é um misantropo por opção, e qualquer rapariguinha que queira mais do que um belo cabide com ‘piwinha’ pras noites frias deseja entrar naquele universo escondido. Um homem com garra, com determinação, que não se gaba de ser tããão inteligente, que não tem qualquer preocupação com o aspecto, que não nos rouba os cremes pra cara… isto sem ser um machista tipo ‘cozinha-me o jantar e remenda-me as meias’. Hello?

Depois o artigo descamba para a comparação óbvia (e admitida por David Shore, que criou a série) entre House e Holmes.

Sinceramente, não percebo o que faz tanta espécie aos membros do sexo masculino. Sim, há tipas que gostam de metrossexuais, outras que gostam de seres pensantes, etc etc. Somos todas diferentes, bolas. Tal como eu me recuso acreditar que todos os seres do sexo masculino iriam de boa vontade pra cama com a Soraia Chaves sem pensar duas vezes. O House é o House e é médico e tem os olhos azuis. Médico. Não nos acusaram sempre de ver o dinheiro à frente de fosse o que fosse? Eis a estabilidade económica. Não percebo como é que ainda ninguém pôs essa questão. ‘Mulher pensante é aquela que se preocupa em assegurar a sua estabilidade económica a qualquer custo, nem que seja através do ordenado do marido’.

segunda-feira, março 26, 2007

Quando julgávamos que já tinhamos visto tudo...

A verdadeira literatura de casa de banho. Brutal. No fundo, faz muito mais sentido do que aquela versão preta da Renova. Kel, queres um nos anos?

terça-feira, março 13, 2007

O Grande Desastre Deste Fim-De-Semana

Bolas, um fim-de-semana que tinha tudo pra correr bem, até recebi uma medalha de 10 anos de banda e coiso e tal, e matam o Frederico! Mas isso faz-se????

terça-feira, março 06, 2007

Aviso

Avisam-se todos os amigos, conhecidos, namorados, relações mais ou menos coloridas ou qualquer outra pessoa que tenha necessidade de me engraxar seja por que motivo for, que coloquei sob a nova secção 'Comprem-me prendas' alguns links que poderão ajudar na hora da escolha.

De nada.

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Amílcares




Pronto, mais uma edição dos óscares. Parabéns Helen Mirren, Happy Feet, guarda-roupa da 'Marie Antoinette' (esse tão injustamente esquecido noutras categorias) e um àparte: já viram que foi preciso o Scorsese pedir os óculos emprestados ao Woody Allen para ganhar a estatueta?

terça-feira, fevereiro 13, 2007

Questionário

Who is the Shark? (quem e o tubarao, ahein?)
Maria Laurinda
Fatima
Braulio
Fausto
Cavaco Silva
Marisa Cruz
Marco Borges
Todos os anteriores
O reitor
A Floribela ajudada pelas fadinhas
  
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segunda-feira, fevereiro 12, 2007

Porque a poesia é o ópio dos ociosos...

TALVEZ

Tua voz me raptou ou
Talvez a aspereza da palma da mão
E a leveza da ponta dos dedos
Nas teclas do piano!

O desengonço da tua silhueta,
Talvez!
Os ombros caídos como os de um vencido,
Talvez!
A quentura da tua pele,
Talvez!
O sorriso belo e triste,
Talvez!

Modelo cultural trazido das cinzas helênicas;
Dos estilos controversos de viver,
Quem sabe?
A vulgar pose de cruzar as pernas,
Talvez...

Uma assombração, aparição que se fez matéria
Com lábios carnudos de púrpura cor,
Quase prostitutos,
Talvez...

Noctâmbulo tímido!
Ama ninguém,
Logo não receia a morte!
Por isso, me aprisionou.
Para sempre?
Talvez!

Helena Quental

AAAAAHHHHHHHH.....

Isto de ser arrancada da cama por um tremor de terra até que tem o seu estilo... ;)

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

Vómito Poético


de repente, acordas e sentes que tudo o que de bom a vida reserva
está no pretérito perfeito e não há maneira
de carregar no rewind e, de qualquer modo, só o esforço de esticar a mão
para fora das mantas está tãão longe das tuas capacidades
que nem o ousas com medo que um machado caia em cima do braço
e to corte. porque tudo o que é mau é possível
desde que não traga nada de bom.

ah, aqueles dias em que querias que existisse um deus
para teres quem processar, ou pelo menos enxovalhar (isto
dos verbos pouco usados uma pessoa nunca tem a certeza
de estar a utilizar a ortografia recomendada nos novos dicionários)
e dizer: senhor deus, desculpe lá mas é um imbecil
com tantas coisas interessantes para fazer porque raio me há-de
estar a foder a vida? isto não é um jogo de computador,
bolas, eu não sou nenhum Job, e se pensa que tenho paciência para sofrer as dez pragas
do Egipto pense outra vez, não é difícil encontrar a resposta,
se quiser a ajuda do público ou telefonar para a Virgem Mãe é só dizer à produção.

o que mais irrita é esta mania
de tentar exprimir sentimentos a bater com os dedos
em teclas de tecnologia pensada pela mente humana, feita pela frieza
agradável do sistema em série, o que há de bom nos computadores
é que ninguém os pariu. abaixo o aborto do windows xp.

quando até a televisão conspira para mudar a hora da nossa série preferida
sem nos apercebemos começamos a acreditar que há forças malévolas superiores, e nós aqui tipo micróbios com cheiro a sabonete e pus na cara (pus escrito não
tem o mesmo impacto que dito) a fingir que o livre arbítrio existe, e que amanhã
será melhor se não nos passar um autocarro por cima. ou que será melhor exactamenteporque isso acontece.

e depois nem me dá gozo reler o que escrevi. é tão pretensioso. é tão
mau. é tão abaixo dos meus parâmetros que era melhor rasgar a folha ou então
lançá-la ao vento, em muitas cópias, para que ninguém ligue ou repare.
ah bendita época em que se deixa de fumar para ter mais dinheiro para comprar mais coisas inúteis nos supermercados, para viver mais anos para comprar mais coisas inúteis nos supermercados,
para que possamos ser saudáveis para apreciar as coisas inúteis compradas nos supermercados,
para que a indústria da nicotina se vire de vez para o negócio dos supermercados.
consumista comunista confessa. derreada. deprimida. suicidada.

Isto de melhorias não vai com nada...

Depois de tanto discorrer sobre o biopic, quem vai precisar de filmes panegíricos sou eu. 'Lady Sara C - a vida inútil, a obra mal começada e o trágico suicídio após melhoria de nota fracassada'

Quero que a Monica Bellucci fique com o papel principal. E o Johnny Depp a fazer de seja lá quem for, não me interessa. Desde que haja uma parte ficcional em que o meu eu cinematográfico se envolva com ele.

Argh, deixem-me voltar à porcaria do Word...